“ Finalmente queremos sugerir, que uma direção produtiva para o estudo da constituição do escritor está na busca da compreensão dobre os diversos planos de dialogia implicados na produção escrita...”( Góes, Maria Cecília Rafael de, 1993, p.115)
Segundo Bakhtin, o autor de um enunciado se constitui quando ao escrever estabelece uma série de diálogos, o diálogo com o discurso do outro, com os personagens ,com o interlocutor, com seu próprio enunciado, o que determinará a forma e o conteúdo do texto.
Flower e Hayes observaram que o processo de escrita se dá através de inúmeras decisões que o escritor toma em relação ao texto que pretende escrever, por meio das representações simbólicas que faz da própria tarefa, do leitor que se deseja atingir, do gênero que vai ser utilizado, entre outros. Este processo se dá ao longo de sucessivos e alternados momentos de planejamento, de escrita propriamente e revisão do texto.
Vigotski , para explicar o desenvolvimento mental, considera a existência de uma zona de desenvolvimento proximal em que as estruturas mentais do sujeito ainda não estão totalmente desenvolvidas para uma determinada atividade, mas que o aprendizado , através da mediação de um outro, modifica- as, possibilitando então alcançar o desenvolvimento necessário para sua realização independente.
Considerando estes autores, Góes interpreta os dados obtidos em sua pesquisa sobre o processo de escrita de crianças, ou seja, a passagem de um momento de utilização insipiente de procedimentos de revisão para o início de um uso mais eficiente destes, por meio da intervenção do entrevistador.
Neste sentido , as crianças da pesquisa ainda não atenderiam espontaneamente a várias das exigências do escrever enquanto instância dialógica, pois apenas se preocupavam com “dizer o texto”, sem considerar a perspectiva do leitor, representação que ainda não fora construída, também porque haveria pouca possibilidade de um movimento de descentração do eu.
Através da mediação passam a “dizer sobre o texto”, ou seja conseguem um certo grau de reflexividade, elevando-se nas formas de ação na escrita.
Ao sugerir que operações reflexivas devam constituir um espaço privilegiado de investimento do trabalho pedagógico, aponta a importância que as atividades escolares tem para que os alunos assumam o lugar de escritor, para que possam gradualmente reconhecer o caráter dialógico do ato de escrever podendo então considerar, entre outros aspectos, o leitor de seu texto.
Góes, Maria Cecília Rafael de. A criança e a escrita: explorando a dimensão reflexiva do ato de escrever. IN: SMOLKA, Ana Luíza B, Maria Cecília Rafael de (Orgs). A linguagem e o outro no espaço escolar: Vigotsky e a construção do conhecimento. Campinas(SP): Papirus, 1993.