sábado, 27 de junho de 2009

A criança e a escrita


“ Finalmente queremos sugerir, que uma direção produtiva para o estudo da constituição do escritor está na busca da compreensão dobre os diversos planos de dialogia implicados na produção escrita...”( Góes, Maria Cecília Rafael de, 1993, p.115)

Segundo Bakhtin, o autor de um enunciado se constitui quando ao escrever estabelece uma série de diálogos, o diálogo com o discurso do outro, com os personagens ,com o interlocutor, com seu próprio enunciado, o que determinará a forma e o conteúdo do texto.
Flower e Hayes observaram que o processo de escrita se dá através de inúmeras decisões que o escritor toma em relação ao texto que pretende escrever, por meio das representações simbólicas que faz da própria tarefa, do leitor que se deseja atingir, do gênero que vai ser utilizado, entre outros. Este processo se dá ao longo de sucessivos e alternados momentos de planejamento, de escrita propriamente e revisão do texto.
Vigotski , para explicar o desenvolvimento mental, considera a existência de uma zona de desenvolvimento proximal em que as estruturas mentais do sujeito ainda não estão totalmente desenvolvidas para uma determinada atividade, mas que o aprendizado , através da mediação de um outro, modifica- as, possibilitando então alcançar o desenvolvimento necessário para sua realização independente.
Considerando estes autores, Góes interpreta os dados obtidos em sua pesquisa sobre o processo de escrita de crianças, ou seja, a passagem de um momento de utilização insipiente de procedimentos de revisão para o início de um uso mais eficiente destes, por meio da intervenção do entrevistador.
Neste sentido , as crianças da pesquisa ainda não atenderiam espontaneamente a várias das exigências do escrever enquanto instância dialógica, pois apenas se preocupavam com “dizer o texto”, sem considerar a perspectiva do leitor, representação que ainda não fora construída, também porque haveria pouca possibilidade de um movimento de descentração do eu.
Através da mediação passam a “dizer sobre o texto”, ou seja conseguem um certo grau de reflexividade, elevando-se nas formas de ação na escrita.
Ao sugerir que operações reflexivas devam constituir um espaço privilegiado de investimento do trabalho pedagógico, aponta a importância que as atividades escolares tem para que os alunos assumam o lugar de escritor, para que possam gradualmente reconhecer o caráter dialógico do ato de escrever podendo então considerar, entre outros aspectos, o leitor de seu texto.

Góes, Maria Cecília Rafael de. A criança e a escrita: explorando a dimensão reflexiva do ato de escrever. IN: SMOLKA, Ana Luíza B, Maria Cecília Rafael de (Orgs). A linguagem e o outro no espaço escolar: Vigotsky e a construção do conhecimento. Campinas(SP): Papirus, 1993.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Interação entre aprendizado e desenvolvimento


Neste capítulo, Vigotski aborda três concepções que procuram explicar a relação entre desenvolvimento e aprendizado em crianças, para depois formular sua teoria a este respeito.
A primeira concepção mencionada considera que os processos de desenvolvimento da criança são independentes do aprendizado e que são pré-requisitos para que este último ocorra. A teoria do desenvolvimento mental de Piaget é uma das que afirma esta relação.
Na segunda teoria, postula-se que o aprendizado é desenvolvimento, e que se dá pela elaboração e substituição de respostas inatas.
A terceira concepção mostra que há uma interação e interdependência entre os processos de aprendizado e o desenvolvimento. Entre os teóricos que assim consideram, menciona Koffka, cujas explicações também procuram dar conta de como as aprendizagens se transferem de uma situação para outra.
Finalmente, Vigotski formula sua teoria sobre a relação entre aprendizado e desenvolvimento mental:
Desse ponto de vista, aprendizado não é desenvolvimento; entretanto, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer.Assim o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funçõespsicológicasculturalmenteorganizadas e especificamente humanas.” (Vigotski, 2007, p. 103)

Postula também, que se frente a uma determinada tarefa a criança lida com ela com independência e sucesso, pode-se considerar que esta está de acordo com o nível desenvolvimento real de suas estruturas mentais.Pode também acontecer da criança não conseguir dar conta do desafio por si só, mas consegui-lo com a interferência de outra pessoa. Neste caso, Vigotski considera que a atividade proposta atingiu um determinado nível que se insere numa zona de desenvolvimento proximal, na qual as estruturas mentais não estão totalmente desenvolvidas, mas que o aprendizado com o outro modifica- as, possibilitando alcançar o desenvolvimento necessário para sua realização independente.
Neste sentido, aponta para a necessidade das atividades escolares envolverem desafios dentro da zona de desenvolvimento proximal dos alunos, para que estes, através da mediação do professor ou na interação com seus pares, possa aprender formas de solução e evoluir mentalmente interiorizando-as.
Para o diagnóstico do momento em que o aluno se encontra, deve-se observar o que já consegue, ou não, fazer por si só na escola para se planejar então os próximos passos para a aquisição dos conteúdos selecionados. Penso que também é útil relacionar este desempenho com as etapas de desenvolvimento e suas possibilidades, como as postuladas por Piaget. Através, por exemplo, de suas provas operatórias, tem-se uma visão mais minuciosa do que está por trás de tal ou qual desempenho, o que pode contribuir para o aprimoramento da intervenção do professor ou do psicopedagogo se for o caso.
VIGOTSKI, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Procedimentos de autoria

Do ponto de vista dos alunos dos primeiros anos do Ensino fundamental, creio que algumas propostas dão condição para que estes possam exercer as atividades que o processo de escrita demanda, assumindo a função de planejamento, processo de escrita e de revisão tal como formulam Flower e Hayes.
As atividades de “aquecimento” que se realizam antes da escrita propriamente podem ajudar os alunos a fazer uma representação do problema, da tarefa de escrita que vão desenvolver. O levantamento do possível produto que será construído a partir dos vários escritos da classe –um livro de narrativas de enigma, por exemplo- e do provável leitor, a retomada das características estudadas do gênero escolhido, do tipo de pontuação que ocorre mais frequentemente, de categorias gramaticais importantes para a produção de certos sentidos ajuda os alunos neste processo. Colocar os alunos em interação para discutirem e tecerem as idéias principais que nortearão a escrita, também funciona como atividade de planejamento, sendo que nestes momentos está sendo produzido exteriormente.
Os procedimentos de revisão também podem ser trabalhados tanto no decorrer da escrita, como ao final do texto produzido. O professor pode provocar artificialmente interrupções no decorrer da escrita para que os alunos releiam e discutam em grupo o que produziram até ali, o que lhes dará condições para continuarem o texto com maior propriedade, maior consciência do que já produziram e dos objetivos que ainda têm para alcançar.
Da mesma forma, ao se completar o texto, pode-se levantar aspectos que devem ser observados pelo aluno antes da finalização, que serão, se necessário, complementados pelos apontamentos do professor.
Através destas atividades as funções de planejamento, escritura e revisão de textos que são propostas pelo professor, e que por isso “acontecem exteriormente ao aluno”, vão podendo ser internalizadas. Assim, tais procedimentos de autoria se constituirão posteriormente como instrumentos de trabalho a que o escritor poderá recorrer e utilizar de forma espontânea e autônoma.
FORTUNATO, Márcia.Procedimentos de autoria.In:____.Autoria e aprendizagem da escrita. 2009. fls.130-148.Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo,São Paulo, 2009.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O processo de produção de textos segundo Flowers e Hayes

Para os autores o processo de escrita não se dá numa sequência de estágios, mas se configura como um conjunto de ações opcionais, de procedimentos cognitivos, que podem ocorrer para o autor a qualquer momento do processo de composição de um texto.
Embora não haja uma ordem para estes processos acontecerem, eles estão continuamente dando conta de momentos de planejamento, de tradução (a escrita propriamente) ou revisão.
O que orienta o autor na escolha de um ou outro caminho são os objetivos a que se propõem para a realização do texto.
Estes objetivos abarcam a tarefa, o leitor que se deseja atingir, o gênero que vai ser utilizado, entre outros, e se estabelecem hierarquicamente numa rede, sendo alguns de caráter mais abstratos e outro de caráter mais funcional.
Concordo com a afirmação que se faz no texto, de que é importante ensinar aos escritores pouco experientes, entre eles destaco os alunos das primeiras séries do Ensino Fundamental, os procedimentos de escrita, em que os objetivos operacionais são visados, pois com as informações que receberem tomarão, pelo menos em certo grau, consciência dos aspectos que o processo de escrita envolve, o que os auxiliarão no desenvolvimento das habilidades que a tarefa requer .
Explicitar o que se quer atingir com a proposta de uma atividade de escrita, ajudá-los a trazer à mente o que já conhecem sobre um determinado assunto, incentivá-los a utilizar recursos linguísticos já aprendidos, destacar as características que o gênero escolhido para a escrita possui, favorece determinantemente o processo de escrita do aluno.
Nestes primeiros tempos, ensinar procedimentos de planejamento e revisão de texto também são necessários, quando então os objetivos da tarefa deverão ser retomados e seu cumprimento verificado.
Desse modo, o escritor com pouca experiência poderá alcançar níveis crescentes de autonomia para lidar com o problema retórico que tem por resolver.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Diálogos entre Bakhtin,Flowers e Hayes


Flowers e Hayes consideram a escrita de textos uma atividade de resolução de problemas, ou seja, como uma atividade em que o escritor tem um papel ativo e que depende de um complexo processo intelectual para se chegar a um resultado.
Durante este processo, o escritor deve definir e colocar para si qual o problema a ser resolvido e responder certas demandas como a situação retórica envolvida e alguns objetivos a que se propõe.
Para isto, mobiliza conhecimentos prévios de várias naturezas (conhecimentos sobre gêneros de textos, recursos lingüísticos e estilísticos), considera e procura criar uma imagem de si para o interlocutor e escolhe os meios que utilizará para atingir sua meta.
Podemos observar alguns diálogos entre o que estes autores destacaram a partir de suas pesquisas com o que Bakhtin definiu na sua análise do processo de produção de textos.
Bakhtin, como Flowers e Hayes, considera o autor como um agente ativo, que faz um recorte, uma seleção valorativa, conscientemente ou não, a partir de sua realidade, do que projetará em seu texto tendo em vista sua intenção ao produzi-lo.
Explica este processo intelectual como decorrente de inúmeras relações dialógicas que o autor estabelece com outros enunciados, com seu próprio texto e personagens, com seu interlocutor em potencial, com as limitações impostas pelo gênero escolhido e pela língua, e estas considerações parecem bastante próximas ao que os outros autores observaram como elementos envolvidos na produção de textos.
Finalmente, Flowers e Hayes apontam para o fato de que para o escritor alcançar o objetivo de escrita a que se propõe, necessita conhecer e poder mobilizar grande número de estruturas enunciativas e que estes conhecimentos podem ser ensinados e portanto aprendidos.Daí decorre a importância e responsabilidade que a escola tem para a implementação dos recursos de escrita de seus alunos.